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Por que o BBB errou ao expor Dania durante a expulsão de Cara de Sapato e Guimê

Texto escrito para a Carta Capital, em 17 de Março de 2023.


A revitimização acontece quando uma vítima de violência é submetida a mais danos ou trauma como resultado do processo judicial ou do tratamento que recebe depois de relatar o abuso. Isso pode acontecer de várias maneiras, incluindo a falta de crença na vítima, a culpabilização da vítima ou a falta de apoio emocional durante o processo judicial. Mas e quando a vítima estava confinada em uma casa cheia de câmeras e sequer teve dimensão do crime que sofreu? Também pode sofrer “revitimização” ao receber a notícia da expulsão?


A resposta é sim convido vocês a pensarem no porquê. No caso que foi evidenciado no último Big Brother Brasil, envolvendo os participantes Cara de Sapato e MC Guimê, que foram expulsos da competição após ampla comoção nacional por terem praticado importunação sexual contra a participante Dania, tivemos uma dimensão de como a culpa opera na psique feminina. Dania, ao ouvir sobre a expulsão, começou a chorar e demonstrar culpa. Dizia que não queria ter prejudicado os participantes e se preocupou com o destino deles a partir daquele fato. A equipe e as outras participantes fizeram um esforço para acalmá-la dizendo que nada daquilo seria culpa dela, mas ela claramente estava muito abalada com toda a situação e demonstrou seu sofrimento emocional.


No Big Brother o Brasil, temos uma premissa de que os participantes não podem ter acesso às informações de fora do confinamento, assim, seria possível que os participantes tivessem sido expulsos sem que o nome de Dania tivesse sido mencionado. Tadeu poderia ter dito “vocês estão expulsos por cometer um crime contra uma participante” e a identidade de Dania poderia ter sido preservada, ao menos para os participantes de dentro da competição. A equipe também poderia ter perguntado para ela como ela gostaria que o anúncio fosse feito.


Essa falta de cuidado com as vítimas de crimes contra a dignidade sexual pode ser fatal aqui do lado de fora do BBB. Imaginem que uma funcionária esteja denunciando seu patrão e que toda a empresa fique sabendo sobre o motivo de sua expulsão e o nome da funcionária. Será que ela teria a mesma paz no trabalho depois disso?


A revitimização, quando acontece em delegacias ou durante um julgamento, pode ser caracterizada como violência institucional, segundo a Lei 14.321 de 31 de março de 2022, fruto de um desdobramento legislativo do “caso Mariana Ferrer”, para previnir “situações potencialmente geradoras de sofrimento ou estigmatização” para vítimas.


No caso da Dania, quem causou esse sofrimento foi a equipe de TV, logo, não podemos falar em violência institucional, o que não impede de fazermos uma leitura crítica sobre como abordar as vítimas de violência em todos os âmbitos.

É sempre importante lembrarmos que a culpa nunca é da vítima e é igualmente importante que a sociedade seja tão treinada para identificar a revitimização como é para identificar o crime em si. Dignidade Sexual mexe fundo com nossos sentimentos e todo cuidado é bem vindo quando estamos diante de vítimas desses crimes.



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