• Julia Pires

O QUE É RESPONSABILIDADE AFETIVA?

Mais do que não brincar com os sentimentos dos outros, nem prometer aquilo que não sabe se vai cumprir. Mais do que não fazer ao outro o que não gostaríamos que fizessem conosco.


Responsabilidade afetiva começa com a tal da empatia, aquela que todo mundo acha que pratica mas ninguém consegue exercer plenamente: compartilhar por um momento o estado emocional do outro a ponto de não feri-lo com o que faria mal pra ele/ela - não pra você. Trata-se de agir de forma que nossas ações e palavras não potencializem o sofrimento do outro nem o levem a crer em uma situação que não é verdadeira e que trará desapontamento.


Se uma pessoa diz para a outra que está apaixonada - quando isso não é verdade - para satisfazer o ego, para conseguir sexo ou por qualquer outro motivo, ela está sendo irresponsável emocionalmente. Pensar só em si OU focar apenas no outro é igualmente irresponsável com a relação, consigo e com o outro. A liberdade de escolha individual interfere na do outro E na coletiva. Nas relações não-monogâmicas ou casuais também deve existir responsabilidade afetiva pois não se tratam necessariamente de relações superficiais ou sem vínculo. Se ainda o for, tratam-se de pessoas.


É evidente que existe uma diferença entre ser responsável emocionalmente e se obrigar a corresponder às expectativas e sentimentos alheios. Estamos falando em ter autorresponsabilidade afetiva: não se submeter de forma oprimida ao desejo do outro, tornando-se refém do que essa pessoa faz ou deixa de fazer, condicionando nossa alegria ou tristeza à aproximação ou afastamento desse alguém. Relações que nos afastam do nosso bem estar. Mas é comum não entendermos nossas próprias vontades e sentimentos, tendo assim dificuldade para sermos claras e honestas com os outros e conosco.


Mas responsabilidade emocional é diferente de sincericídio. Não basta dizer de qualquer jeito só para tirar aquilo de dentro de si e se sentir uma pessoa legal. Colocar em prática o conceito de comunicação não violenta, focando em como está se sentindo, e não em acusações ou agressões ao outro pode ser uma atitude responsável. É importante que os envolvidos tenham ciência de que existe diferença entre o que o outro merece saber para tomar suas decisões e os detalhes que só contribuirão para aumentar o sofrimento de ambas as partes. Existem maneiras de fazer as coisas com mais ou menos empatia e ética. As pessoas, mesmo quando sofrem, valorizam se são tratadas com gentileza e apreço.


Também pode ocorrer de a pessoa ter empatia, ser clara e transparente e ainda assim ser mal interpretada. E achar que o fato de ter sido sincera elimina a possibilidade da outra pessoa criar expectativas. Não temos controle sobre o mundo interior do outro e, às vezes, mesmo que a pessoa seja clara e sincera, a outra cria expectativas. Ainda assim, isso não justifica a indiferença com os sentimentos alheios. É comum pessoas justificarem atitudes abusivas de parceiros(as) por exemplo, dizendo que este sofre de algum transtorno psicológico decorrente ou não de trauma. Isso pode até explicar o comportamento mas não o justifica.


O termo responsabilidade emocional se aplica a qualquer tipo de relação. A criança aprende a ver o mundo ao seu redor e a si mesma com base no que seus cuidadores dizem e na maneira como agem com ela. Portanto, se é constantemente criticada ou negligenciada, pode crescer acreditando que, de fato, não é digna de amor ou que não pode confiar em ninguém. Está sendo vítima da irresponsabilidade afetiva de quem mais a ama. O fato de amarmos alguém, não garante que seremos responsáveis afetivamente.


Já parou pra pensar o que te faz cultivar determinadas relações em que há irresponsabilidade afetiva de alguma ou ambas as partes? A ausência desse cuidado não justifica atitudes irresponsáveis da nossa parte, desde que nunca configure opressão.


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